PESQUISA: MULHERES VÍTIMAS DE AGRESSÃO SEXUAL TÊM ENTRE 10 E 19 ANOS

QUASE 45% DAS MULHERES VÍTIMAS DE AGRESSÃO SEXUAL TÊM ENTRE 10 E 19 ANOS

Estudo alerta para os perigos da demora na busca por atendimento
médico, o que aumenta o risco de contaminação pelo HIV

Quanto tempo uma vítima de violência sexual leva para procurar atendimento em serviço de saúde especializado? Foi esse o questionamento que motivou a professora de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina do ABC (SP), Dra. Maria Auxiliadora Vertamatti, a desenvolver estudo retrospectivo com 439 casos de mulheres atendidas pelo Programa de Atenção à Violência e Abuso Sexual de São Bernardo do Campo (PAVAS-SBC) entre 2000 a 2007. O resultado do levantamento detalhado foi retratado em forma de dissertação de mestrado, que acaba de ser aprovada em defesa na própria FMABC. Intitulado “Fatores associados ao tempo de chegada de mulheres ao serviço de saúde após violência sexual”, o trabalho procura descrever características sócio-demográficas e clínicas das vítimas de violência sexual e a associação com o tempo decorrido entre a agressão e a chegada ao serviço de saúde.

Do universo de 439 mulheres estudadas, 44,4% estavam na faixa entre 10 e 19 anos, enquanto 47,3% tinham entre 20 e 39 anos. Em relação ao tempo, 374 (85,19%) vítimas chegaram em até 72 horas ao hospital e 65 (14,81%) após esse período. “A infecção pelo HIV é a grande preocupação para mulheres agredidas sexualmente. Trabalhos indicam risco de infecção entre 0,8 e 2,7% nesses casos, com variações segundo condições como tipo de exposição sexual (anal, vaginal ou oral), número de agressores, suscetibilidade da mulher, traumatismos ou lesões genitais associados, carga viral do agressor e, principalmente, o tempo decorrido entre o contato com indivíduo infectado e o início das medicações profiláticas”, explica a autora do estudo, que detalha: “Há consenso na literatura de que a profilaxia anti-HIV deve ser iniciada o mais precocemente possível. O vírus chega à circulação sanguínea após cerca de 48 horas do contato sexual. Consideramos 72 horas como limite aceitável, dentro do qual as drogas antirretrovirais ainda podem exercer efeito protetor”.

Segundo Dra. Maria Auxiliadora Vertamatti, o desconhecimento desses detalhes técnicos pode ter contribuído para que quase 15% das mulheres pesquisadas chegassem após 72 horas, impossibilitando cuidados mais apropriados. De acordo com o trabalho, o crime mais frequente foi o coito vaginal (43,9%), enquanto a penetração oral foi exclusiva em 8,9% e a anal em 3,6%. A associação de dois ou mais crimes ocorreu em 31,4% dos casos. Em 11,9% das mulheres, mais de um agressor esteve envolvido na agressão.

Pudores e tabus ainda atrapalham: Entre os resultados obtidos, a violência por agressor conhecido está entre os que mais chamam a atenção. Cerca de 15% das vítimas sofreram traumas genitais, enquanto 18,6% apresentaram trauma extragenital. O agressor era conhecido em 18,4% dos casos e 62,4% compareceram à delegacia para registrar queixa policial. “O fato de o agressor ser conhecido atrasa a busca pelo serviço de saúde. Além do constrangimento e humilhação experimentados pela vítima, o medo de retaliação do agressor – que poderia reencontrá-la facilmente – pesa mais que o medo de gravidez e infecções”, alerta a professora da FMABC.

Por outro lado, a análise estatística do estudo indicou a presença de trauma não genital e a denúncia policial como fatores de proteção, fazendo com que a paciente chegasse em tempo hábil para as profilaxias. A suposição natural é de que profissionais das delegacias e pronto-socorros tenham encaminhado os casos pós-agressão sexual com maior brevidade ao serviço de referência. “Ficamos espantados ao constatar que traumatismos genitais não tenham servido igualmente como fator de proteção. Pudores e tabus sociais tornam mais difícil à vítima exibir injúrias em sua intimidade, como lacerações e sangramentos vulvares ou vaginais”, lamenta a pesquisadora.

Políticas públicas para capacitação, divulgação e integração entre os setores envolvidos na abordagem da violência sexual podem reduzir as complicações decorrentes da agressão. O combate ao problema da violência sexual, seja contra a mulher ou a criança, requer ações integradas das áreas de educação, justiça, ação social e sociedade civil, além da saúde, a quem compete o atendimento de urgência com intuito de proteger a vítima de riscos de gravidez, doenças de transmissão sexual e danos psicológicos.

Fonte: MP & Rossi Comunicações

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