Amor intenso e delicado Por André Resende
By Elaine on Mar 12, 2010 with Comments 0
* Por André Resende
Em pesquisa recente, 70% dos adultos disseram não saber mais viver sem internet. Não conheço pesquisa, mas 100% dos adolescentes não suportam a vida sem internet. E 100% dos pré-adolescentes têm algum contato com a Internet. Podemos dizer que este ano, 2010, é o marco histórico, a ponta de lançamento, dos livros digitais. Era uma vez, nos anos 90 passados, um estudo professado por especialista em tecnologias futuras declarando o livro, tal como o conhecemos até agora, impresso gráfico com tinta sobre papel, uma tecnologia descansada, insubstituível. Não sem concorrência. Acreditei, acredito.
Parece-me sinal de novo tempo que José Mindlin, a quem livros e leitores se curvam em reverência, venha nos faltar no ano em que as câmaras de livros, editoras e mídias juntam-se para apontar os padrões de acesso à leitura digital do futuro recente. Depois de Mindlin, guardião e sacerdote dos livros, resiste, indiferente aos sinais de mudança do tempo, Edson Nery da Fonseca, que dedica a vida para amar os livros.
Quando eu tinha 12 anos, minha mãe juntava uma dúzia de revistas com fotonovelas e me pedia para ir ao sebo da esquina trocá-las por algumas outras. Quando aquele lugar parecia limitado às nossas expectativas, tomava um ônibus elétrico e ia ao centro da cidade. Rua das Flores, sebo de madeira, quase casebre, de um homem chamado Belarmino, com livros espalhados e sem nenhum critério de organização, a não ser o ache o que interessa. De graça, meu Deus. Passei trocar revistas por livros.
Visito sebos até hoje. Em qualquer cidade para onde viajo, tiro, só para mim, algum tempo para três reverências: sentar na área de leitura de uma Biblioteca e trabalhar um pouco lá como se minha vida ali fosse para sempre, sentar em algum café, abrir minha caderneta e compor minhas ontografias e, sem esquecer, visitar alguns sebos. Ao contrário de Mindlin, não costumo procurar relíquias: deixo meus impulsos me comandarem e me arrastarem a um punhado de autores que jamais abandono – e a surpresas inevitáveis.
Mais recentemente, encontrei um livro, de Vicente Valero, sobre Walter Benjamin, o escritor e filósofo, em seus dois anos de delírio, preguiça, pobreza, desamores e depressão em Ibiza. Me fez ver, ao contrário do que se imaginava, que Benjamin não fugiria para nenhum lugar a não ser para Ibiza, àquela altura empilhada de nazistas em férias. E um livro de ensaios para ter por perto sempre, de Octavio Paz, In/Mediciaciones – mais uma vez entendi que o ensaio é um momento de delicadeza com as ideias e os sentimentos.
Jorge Luis Borges escreveu que o livro é extensão da memória e da imaginação. Tenho repetido essa frase há alguns meses. Não por acaso, os regimes autoritários e totalitários, ao pressentirem a memória e a história como instrumentos que alimentam a imaginação dos sujeitos com rebeldias e resistências, costumam queimar, censurar e renegar os livros, tanto quanto prender, torturar e matar os escritores. Tzvetan Todorov, escritor e lingüista, em entrevista à revista Bravo! de fevereiro passado declarou que a principal tarefa dos professores é ensinar aos alunos o amor pelos livros. Amantes dos livros, não se distanciariam do interesse pelo conhecimento. Com isso, a possibilidade de continuarmos a extraordinária aventura, única entre os organismos vivos, de acumular informação fora do nosso corpo e, cada vez mais, de formas várias, diversas, a ponto de permitir mexer nas informações que vêm como herança genética.
A esperança de Todorov não é muito diferente da minha. Talvez ele saiba como tornar isso possível. Eu não sei. Faço algumas tentativas. É pura fantasia se cito ou finjo refletir sobre personagens como Peter Kien, de Die Blendung/A ofuscação/Auto-de-Fé, de Elias Canetti, por amar os livros e tê-los como posse. Sou, apenas, leitor. Nem mesmo, como Walter Benjamin e José Mindlin, me interesso de ter livros como colecionador.
Os tablets, os flexbooks – ou qualquer coisa em seu lugar –, armazenando centenas de livros, revistas, jornais e possibilitando a compra ou consulta daqueles que não estão conosco serão uma forma mais simples, acessível e flexível de chegarmos ao conteúdo estético e informativo? Mudar do papel para a tela digital, reduzir os processos de armazenamento, information design e permitir acessibilidade, comprometerá o conhecimento?
Em algum momento evoluímos dos copistas para a prensa. Estamos passando do artefato em papel para o digital. Estarei a um passo dos dois modelos pela causa de um amor intenso e delicado aos livros, seja como forem. Talvez meus hábitos mudem: não visitarei sebos, não precisarei ir a bibliotecas, pois terei acesso remoto aos acervos. Talvez, ao sentar em um café, me intimide de escrever em um de meus cadernos com pauta, ter à mão uma caneta uni-ball fine waterproof blue. Há tantos anos uso notebooks e Internet, não seria uma transição conflituosa.
Seja lá como for, o sebo de Belarmino ficou para trás e eu costumo comprar livros, também, na Estante Virtual. Mas é o prazer de flanar entre livros que me agrada, como agrada a outras pessoas passear em uma feira de lanchas velozes, em Miami, ou em uma exposição de carros de luxos no cais do rio Arno em Florença. É a sensação de que tenho nas mãos uma boa estória, a desvendar, ou um conhecimento novo, a descobrir, que me deixa estimulado pelos livros. Posso fazer dobras aí, mas continuo.
* André Resende é escritor, ensaísta. Livros publicados: Mundo Enquadrado (ensaios), Amor Vário (romance), Quem disse sim (poesia), Maçã Caramelada (teatro), Quem sou eu (infantil), Uma coisa de cada vez (contos), Birdboy (romance). Atua como psicanalista e é membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil, IPB.E-mail: andreresende@meios.com.br
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