Artigos: Somos todos anoréxicos
By Elaine on Mar 05, 2010 with Comments 0
->
Por André Resende
Por que as pessoas fazem greve de fome?
Adolescentes do mundo, influenciadas por um padrão imaginário de aceitação e beleza, começam escolhendo itens do cardápio, depois evitam proteínas, carboidratos e, por fim, vitaminas e sais minerais. Tudo cientificamente comprovado. Emagrecem, morrem.
Mulheres do mundo que, até parece, encontraram um tema extensivo aos interesses dos homens – associado, cientificamente, à beleza, longevidade e saúde -, começam com dietas de programas de televisão, passam para as de revistas de fofocas, entram pelos milagres do ligue agora e comprovam tudo com velhas receitas de endocrinologistas. Tudo, no início, oficialmente balizado por palavras médicas. Emagrecem, morrem.
Os obesos, homens e mulheres, crianças e adultos, são levados por circunstâncias da vida – diabetes, hipertensão, colesterol alto etc. – voltar dezenas de quilos e chegar a um modelo que, por algum descuido ou sentido, deixaram se transfigurar e deu no que deu. Se não emagrecem, morrem.
Há explicação, contestação e diversidade para cada sujeito e modelo. De verdade, estar à mesa com um grupo que passa a maior parte do tempo reclamando da vida com mais alguns quilos e, depois de você passar algum tempo preparando algo especial, dizer que vai colocar um nada no prato, apenas para não dizer que não provou e perdeu, é abominável. Está difícil me acostumar à cena. Seremos todos, amanhã, anoréxicos? Seremos todos grevistas, passando fome em oposição a quem criou o modelo repugnante, devastador e aterrorizante de assados, cozidos, embutidos, guisados, molhos e massas? Seremos presos de consciência e do inconsciente? Faremos greve de fome, e morreremos, em nome da saúde, juventude e longevidade?
Em Cuba, morreu no dia 24 de fevereiro, Orlando Zapata Tamayo, depois de passar 85 dias em greve de fome. Estava preso há 3 anos por discordar do modelo de governo, em nada democrático, existente lá há mais de cinco décadas. Não era apenas prisioneiro político. Era prisioneiro de consciência. Alguém que desacata e discorda da autoridade e das leis. Não é coisa simples, para um cubano que mora na ilha, pensar diferente do governo liderado pela família Castro (Fidel entregou seu cargo ao irmão Raul e este passará ao filho).
O argumento do governo para contestar aqueles que falam em ausência de direitos humanos, civis e políticos é elementar, replicado na mídia por aqueles que não confiam nunca na democracia: Cuba está em guerra. Em tempos de guerra, o governo pode tudo (o fato de os americanos também não darem importância aos direitos humanos na base de Guantánamo, na ilha de Cuba, não quer dizer que as atrocidades e desrespeitos do governo cubano, com aqueles que pensam diferente “deles”, tenham de ser toleradas e insignificantes para não nos abalar).
É mais fácil ser a favor de Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, Irã e de vários africanos e asiáticos vivendo fora, a distância. O jornalista Samarone Lima esteve em Cuba. De volta, escreveu o livro-reportagem Viagem ao Crepúsculo (deixo os detalhes para a curiosidade de quem queira consultar o livro e me atenho a um pensamento comum: para a população existe nós e eles (eles, lá, são pessoas na direção do governo e no controle do exército). Ou seja: como aqui, lá se assiste a tudo bestializado.
Tamanha inspiração, abriu franquia, na Venezuela. Com esse motor histórico de ameaça externa e interna, Irã, Coreia do Norte e logo mais outros(?) – por favor, argentinos, resistam, acreditem que quem desconhece o passado condena-se a repeti-lo – se seviciarão sob a alegação de que a História, esquecida, sem memória, e contada pelos amigos, absolverá.
Divaguei. Costumo divagar, em especial, quando encontro pela frente dois fenômenos divergentes que parecem ter o mesmo padrão. Minha questão é: que leva uma pessoa fazer greve de fome, ainda mais em um país que alega não ter quem passe fome? E, no caso de Orlando Zapata Tamayo, por que ele fez greve de fome? Estaria insatisfeito com as refeições do cárcere político cubano? Ou será que ele imaginou que Fidel, Raúl, Hugo, Luiz Inácio, Ahmadinejad não são os caras do momento? Será que Orlando não se contentava com tudo que não lhe davam e, por isso, se colocou na condição de não-bestializado? Ou será que não foi a fome, mas o cárcere, a falta de liberdade de expressão e crítica que levou Orlando à morte? Por que não querem ficar no lugar de bestializados alguns dos companheiros de cárcere de Orlando que seguem em greve de fome?
Ou – vamos esquecer a questão política e não mexer com os outros de outros países – será que, também lá, somos todos anoréxicos?
André Resende é escritor, ensaísta. Livros publicados: Mundo Enquadrado(ensaios), Amor Vário(romance), Quem disse sim (poesia), Maçã Caramelada (teatro), Quem sou eu (infantil), Uma coisa de cada vez (contos), Birdboy (romance). Atua como psicanalista e é membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil, IPB.
Ofertas Submarino
Popularity: unranked [?]
Conheça nossa lojinha acessando o link Loja Mulherzinha NewsFiled Under: Artigos
About the Author:




