Artigos: O tempo do amor por André Resende
By Elaine on Jun 04, 2010 with Comments 0
* Por André Resende
O segredo dos seus olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2009) é uma estória para ser comentada com delicadeza. Pelo cuidado com que Juan José Campanella escreveu e dirigiu o filme, assim como adaptou o romance La pregunta de sus ojos (A pergunta dos seus olhos), de Eduardo Sacheri. E para pensar como é simples, porém devastador, deixar o tempo passar sem declarar os desejos. O filme ganhou o Oscar de melhor produção estrangeira de 2009 e se tornou a película argentina mais vista nas últimas três décadas. Destacaria, a mais, as leituras que são possíveis fazer e fogem ao controle de quem escreve ou mostra uma estória de amor.
Benjamin Espósito, funcionário aposentado do Tribunal Penal de Buenos Aires, resolve escrever um romance. Solteiro, sem família, faz anotações para o livro em cafeterias e à noite, em casa. Não diz que pretende contar memórias ou relatos de sua vida. Trata-se de um romance, a partir de um homicídio que investigou em 1974, época do governo de Isabel Perón e do grupo de repressão do Estado Aliança Anticomunista da Argentina.
Como se sabe, um romance não tem de ter nenhum compromisso com a verdade. É obra de ficção. Mesmo os romances históricos não têm razão para cumprir fielmente a História, uma vez que vêm a público, provavelmente, para fazer um resgate capaz de deixar em paz aqueles que nunca aceitaram os fatos como os fatos foram e porque sabem que os fatos são construídos como alguém os viu.
Jovem, funcionário público, Benjamin passa a ser chefiado por uma advogada graduada nos Estados Unidos, com sobrenome de família influente. Enamora-se pela chefe e, sempre que estabelece contato com ela, fixa-se contemplativamente em seus olhos. É um amor de distância e aproximação, mas não sabe escolher qual é o momento de distância, qual de proximidade. Todos os encontros são no ambiente de trabalho.
Não há registro que, antes daquele homicídio, tenha agido em suas atividades profissionais com tamanho interesse e burlas de limite na revelação de um caso. Não seria uma tentativa de mostrar-se útil à chefe amada? Não estaria Benjamin fugindo do óbvio? Se sabe que Benjamin vive para o trabalho, sem deixar espaço para construir algo a mais fora daquele ambiente. Aquele homicídio veio na hora certa, para ocultar e ressaltar sua paixão.
Enquanto assegura-se que é preciso esclarecer o homicídio – na história da Argentina, ali e em seguida, haverá tantos mais sem esclarecimento ou rastro -, sua chefe, Irene Menéndez Hastings, fica noiva e mostra ter uma vida fora do trabalho, à espera que ele possa sair desse paradoxo obsessivo e se declare para ela. Mas ele não faz isso. Ao contrário, pede-lhe que o proteja na continuidade do trabalho.
De volta para recontar a história em um romance – ficção, estória -, Benjamin procura sua ex-chefe. Por que precisa anunciar-lhe a retomada daqueles dias? Ambos pessoas maduras. Ela, casada, com filhos. Ele, separado (e tivera algumas namoradas, comenta). Mas estava sozinho e assustado com a decisão de remontar sua história de amor e demolição. Escreve em um papel: temo. Não poderia ser de outro jeito, a não ser prometendo romancear o que, na verdade, são memórias de um fracasso.
Ao resgatar sem por limites os fatos do homicídio e as consequências que o empurraram a um exílio interno, no interior do país, contando llanas, Benjamin, na verdade, está tentando resgatar como foi que pôde perder seu grande amor. Seu método de reconstrução é o mesmo do passado, prova de que ainda está se repetindo em fugas e desvios para não enfrentar de frente sua vida. Não seria mais simples procurá-la e declarar-se?
É verdade que, a todo tempo, a estória que se acompanha tem a ver com a reconstrução do assassinato, o processo envolvendo o marido da vítima, o assassino e as práticas burocráticas em torno do crime. Não se trata de uma denúncia do modelo político ou penal à época, pois a realidade social do país aparece descontextualizada e a legal resvalada pela burocracia e as cenas dos olhares. Tampouco é qualquer outra coisa que não seja uma estória de amor.
Talvez o que Benjamin queira saber, muitos anos depois, é a resposta que está presente nos olhos atentos de Irene aos seus olhos: não há o que temer. Uma resposta que se transformou em segredo. Ou dúvida. Na impossibilidade de declarar-se, enfiou-se no trabalho (sim, era aquele seu trabalho, mas precisava ser toda sua vida?), para além das necessidades que o trabalho, em geral, pede. Tal como é contada a estória de Benjamin e Irene, espera-se que o segredo esteja em outro lugar, nos olhos da vítima ou na maneira como o assassino olha interessado pela garota. Se há algo a desvendar, há algo que Benjamin não pode enfrentar.
Os olhos de Benjamin não enganam: estão atentos a Irene. Os olhos de Irene não enganam: estão atentos a Benjamin. Por que não a levou com ele para o fim do mundo?, ela pergunta qualquer coisa assim. Porque ele precisou fugir. Seria demolidor – e, afinal, foi isso mesmo, de outra forma – suportar perdê-la bem de perto.
O romance, enfim, é, apenas, um relato, um relatório a mais. Acrescido de qualquer coisa, agora, que é sua história de amor fracassado. Com o acréscimo – temeu dizer-lhe te(A)mo, por duvidar que fosse correspondido? -, Benjamin tenta recomeçar com Irene e restaurar um tempo do amor que esteve presente quando se olhavam maravilhados, eram jovens e tinham todo tempo do mundo para o amor.
* André Resende é escritor, ensaísta. Livros publicados: Mundo Enquadrado (ensaios), Amor Vário (romance), Quem disse sim (poesia), Maçã Caramelada (teatro), Quem sou eu (infantil), Uma coisa de cada vez (contos), Birdboy (romance). Atua como psicanalista e é membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil, IPB.E-mail: andreresende@meios.com.brOfertas Submarino
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